Hoje iniciamos a Sagrada Novena do Divino Espírito Santo

 No dia 31 de maio a igreja celebrará o Espírito Santo e, por isso, durante nove dias, os fiéis se preparam para Pentecostes, a grande Solenidade em honra à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

A seguir, a Sagrada Novena do Divino Espírito Santo com meditações de Santo Afonso Maria de Ligório.

Orações iniciais para todos os dias

 

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Rezemos juntos a oração do Espírito Santo, que pode ser rezada em latim ou português, como preferir:

Veni Creator Spiritus

Veni Creator Spiritus
Mentes tuorum visita
Imple superna gratia
Quae tu creasti, pectora

Qui diceris Paraclitus
Donum Dei altissimi
Fons vivus, ignis, caritas
Et spiritalis unctio

Tu septiformis munere
Dexterae Dei tu digitus
Tu rite promissum Patris
Sermóne ditans guttura

Accende lumen sensibus
Infunde amórem córdibus
Infirma nostri corporis
Virtute firmans perpeti

Hostem repéllas longius
Pacemque dones protinus
Ductore sic te praevio
Vitemus omne noxium

Per te sciámus da Patrem
Noscamus atque Filium
Teque utriúsque Spiritum
Credamus omni tempore

Deo Patri sit glória,
et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito,
in saeculórum saecula.

V/ Emítte Spíritum tuum, et creabúntur.
R/ Et renovábis fáciem terrae.

Deus    qui    corda    fidélium    Sancti

Spíritus illustratióne docuísti: da nobis in eódem Spíritu recta sápere; et de ejus semper consolatióne gaudére. Per    Christum    dominum   nostrum. Amém

Vinde Espírito Criador

Vinde Espírito Criador
Visitai as almas vossas
Enchei da graça do alto
Os corações que criastes

Sois chamado Consolador
O dom de Deus Altíssimo
Fonte viva, fogo, caridade
E unção espiritual

Sois formado de sete dons
O dedo da direita de Deus
Solene promessa do Pai
Que inspira as palavras

Iluminai os sentidos
Infundi o amor nos corações
Fortalecei nossos corpos
Virtude firmai para sempre

Afastai o inimigo
Dai-nos a paz sem demora
E assim guiados por Vós
Evitaremos todo o mal

Fazei-nos conhecer o Pai
E revelai-nos o Filho
Para acreditar sempre em Vós, Espírito
Que de ambos procedeis

Glória ao Pai, Senhor,
Ao Filho que ressuscitou
Assim como ao Consolador.
Por todos os séculos. Amém

V/ Enviai, Senhor, o vosso espírito e tudo será criado
R/ E renovareis a face da terra

Oração

Ó Deus, que ilustrastes os corações dos fiéis com as luzes do Espírito Santo, dai-nos, pelo mesmo Espírito, procurar o que é reto, e nos alegrarmos sempre com a sua consolação. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém


Aqui se faz a meditação para cada dia da novena e ao final se reza a ladainha do Divino Espírito Santo.

Escolha o dia:


LADAINHA DO DIVINO ESPIRITO SANTO (Final)

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Divino Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Paráclito, atendei-nos.

Deus, Pai dos Céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende…
Espírito que enche a face da terra, tende…
Espírito que orna os céus, estável e seguro, tende…
Espírito de verdade que tudo distribui e sugere, tende…
Espírito de sabedoria e inteligência, tende…
Espírito de conselho, fortaleza, ciência e piedade, tende…
Espírito de temor do Senhor e da prudência tende…
Espírito, através de cuja inspiração falaram os homens de Deus, tende…
Espírito, Que anunciais as coisas por vir, tende…
Espírito, Dom e promessa do Pai, tende…
Espírito Santo Paráclito acusador do mundo, tende…
Espírito, através quem os Demônios são expulsos, tende…
Espírito, através do qual nós renascemos, tende…
Espírito através de quem o amor de Deus é infundido em nossos corações, tende…
Espírito de adoção dos filhos de Deus, tende…
Espírito de graça e de misericórdia, tende…
Espírito auxiliador da nossa enfermidade, que restaura em nós o testemunho de que somos filhos de Deus, tende…
Espírito suave, benigno, mais doce que o mel, tende…
Espírito, penhor da nossa herança, que nos leva por caminhos justos, tende…
Espirito de autoridade, que vivifica e conforta, tende…
Espírito de salvação, juízo e alegria, tende…
Espírito de fé, de paz e de ardor, tende…
Espírito de humildade, caridade e castidade, tende…
Espírito de benignidade, bondade, longanimidade e mansidão, tende…
Espírito de suavidade, verdade, unidade e consolação, tende…
Espírito de compunção, promessa, renovação e santificação, tende…
Espírito de vida, paciência, continência e modéstia, tende…
Espírito de todas as graças, tende…

Sede-no propício, perdoai-nos Santo Espírito
Sede-nos propício, ouví-nos Santo Espírito

De todo o pecado, livrai-nos, Espírito do Deus Vivo
Do espírito do erro, livrai-nos, Espírito do Deus Vivo
Do espírito imundo, livrai-nos…
Do espírito de blasfêmia, livrai-nos…
De toda presunção e desespero, livrai-nos…
Do ataque à verdade conhecida, livrai-nos…
Da inveja da graça fraterna, livrai-nos…
De toda obstinação e impenitência, livrai-nos…
De toda negligência e torpor do espírito, livrai-nos…
De toda malícia e mau pensamento, livrai-nos…
Da morte eterna, livrai-nos…
Pela vossa eterna processão do Pai e do Filho, livrai-nos…
Pela vossa invisível unção, livrai-nos…
Por toda a plenitude de graças, com a qual enchestes a Virgem Maria, livrai-nos…
Pelo abismo de superabundante santidade, com a qual fizeste inundar em Maria na conceição do Verbo Divino, livrai-nos…
Pela vossa santa aparição no batismo de Cristo, livrai-nos…
Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor, livrai-nos…
Pelo vosso salutar advento sobre os apóstolos, livrai-nos…
Pela vossa inefável bondade, com a qual governais, conciliais, presidis a Igreja, fortaleceis os mártires, iluminais os doutores, instituis os religiosos, livrai-nos…
No dia do juízo, livrai-nos…

Ainda que pecadores, nós vos rogamos, ouví-nos.
Para que nos perdoeis, nós vos rogamos, ouví-nos.
Para que andemos no espírito e não abracemos os desejos da carne, nós vos…
Para que vos digneis conservar todas os eclesiásticos na santa religião e no Espírito de verdade, nós vos…
Para que vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração, nós…
Para que vos digneis inspirar-nos sinceros afetos de misericórdia e caridade, nós vos…
Para que vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro, nós vos…
Para que vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranquilidade de coração, nós vos…
Para que vos digneis fazer-nos dignos e fortes, para suportar as perseguições pela justiça, nós vos rogamos…
Para que vos digneis nos conceder o complemento de todas as virtudes, nós vos…
Para que vos digneis confirmar-nos em vossa graça, nós vos rogamos…
Para que vos digneis receber-nos no número de vossos eleitos, nós vos rogamos…
Para que vos digneis nos ouvir, nós vos rogamos…
Espírito de Deus, nós vos rogamos…

Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, infundi em nós o Espírito Santo
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, enviai-nos o prometido Espírito do Pai
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos o Espírito Bom.

Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Consolador, atendei-nos.

V/. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado. R/. E renovareis a face da terra.

Oremos. Ó Deus, que vedes o coração e o mais secreto da vontade humana, e a quem o homem nada pode ocultar, purificai, com a efusão do Espírito Santo, os pensamentos do nosso coração, para que digna e perfeitamente possamos vos louvar. Por Cristo Senhor nosso. Amém.

Meditações de Santo Afonso de Ligório

Primeiro dia – Sexta-feira

O amor é um fogo que abrasa

“E apareceram-lhes repartidas, como que línguas de fogo” (Atos 2, 3).

Sumário: A Novena do Espírito Santo é a primeira de todas, porque foi celebrada pelos santos Apóstolos e por Maria Santíssima no Cenáculo, entre muitos prodígios.

Lembremo-nos de que ao Divino Paráclito é atribuído especialmente ao dom do amor. Convém, portanto, que nesta novena consideremos o grande valor do amor divino. Em primeiro lugar o amor é aquele fogo que inflamou todos os santos a fazerem grandes coisas de Deus. Se quisermos também ficar abrasados, apliquemo-nos sempre, mas em particular nestes dias, à oração, que é a fornalha onde o fogo do amor se acende.

I. Deus ordenou na antiga Lei que o fogo ardesse continuamente no seu altar: “O fogo sempre ardia no altar” (Levítico 6, 12). Diz São Gregório que os altares de Deus são nossos corações, onde ele quer que o fogo de seu santo amor arda sem cessar. Por isso o Eterno Pai, não satisfeito de nos ter dado Jesus Cristo, seu Filho, para nos salvar por sua morte, quis dar-nos ainda o Espírito Santo para que habitasse em nossas almas, e as conservasse continuamente abrasadas de amor.

Jesus mesmo declarou que descera à terra exatamente para inflamar com este fogo sagrado os nossos corações, e que seu único desejo era vê-lo aceso: “Eu vim trazer fogo à terra, que quero eu, senão que ele seja aceso?” (Lucas 12, 49). Eis aqui porque, esquecendo as injúrias e as ingratidões dos homens, logo que subiu ao Céu nos enviou o Espírito Santo. – Assim, Ó Redentor amantíssimo, na vossa glória, como nos vossos sofrimentos e humilhações, nos amais sempre?

Pela mesma razão, o Espírito Santo quis aparecer no Cenáculo sob a forma de línguas de fogo: “E apareceram-lhes repartidas, como que línguas de fogo” (atos 2, 3). Por isso a Igreja nos faz rezar com estas palavras: “Ó Senhor, fazei que o vosso divino Espírito nos inflame com o fogo que Jesus Cristo veio trazer sobre a terra, e que desejou tão ardentemente ver brilhar nela.” – Foi este amor o fogo que inflamou os santos a fazerem grandes coisas para Deus: a amar os inimigos, a desejar os desprezos, a despojar-se de todos os bens terrenos e a abraçar com alegria os tormentos e a morte. O amor não pode ficar ocioso e nunca diz: Basta. A alma que ama a Deus, quanto mais faz por seu Amado, mais quer fazer ainda, para mais lhe agradar e ganhar mais e mais a sua afeição.

II. O Espírito Santo acende o fogo do amor divino por meio da meditação: “Na minha meditação se acenderá o fogo” (salmo 38, 4). Se então desejamos arder em amor para com Deus, amemos a oração; ela é a feliz fornalha em que o coração se abrasa neste amor celeste.

Meu Deus, até aqui nada fiz por Vós, que tão grandes coisas haveis feito por mim. Ah! Quanto a minha frieza Vos deve mover a rejeitar-me! Peço-vos, ó Espirito Santo: Aquecei o que está frio. Livrai-me da minha frieza e inspirai-me um grande desejo de Vos agradar. Renuncio a todas as minhas satisfações, e antes quero morrer do que dar- vos o menos desgosto. – Aparecestes sob a forma de línguas de fogo; consagro-vos a minha língua, para que não Vos ofenda mais. Ó Deus, Vós me destes a língua para Vos louvar, e dela me tenho servido para Vos ultrajar e levar os outros também a ofender- vos! Arrependo-me de toda a minha alma.

Ah! Pelo amor de Jesus Cristo, que na sua vida Vos honrou tanto com sua língua, fazei com que d’ora em diante não cesse de vos honrar, celebrando vossos louvores, invocando-vos muitas vezes, falando da vossa bondade e do amor infinito que mereceis. Amo-vos, meu soberano bem; amo-vos, ó Deus de amor. – Ó Maria, sois vós a esposa mais querida        do Espírito Santo; obtende-me este fogo divino.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Segundo dia – Sábado

O amor é uma luz que esclarece

“Ilumine os meus olhos, para que eu não durma jamais na morte” (Salmo 12, 4)

Sumario: Um dos maiores males que nos causou o pecado de Adão, é o obscurecimento da nossa razão pelo efeito das paixões que nos ofuscam o espírito. Ora, o ofício do Espírito Santo é exatamente dissipar as trevas do pecado e ao mesmo tempo fazer-nos conhecer a vaidade do mundo, a importância da salvação eterna, o valor da graça e o amor imenso que Deus merece pela sua bondade e misericórdia. Se queremos ser iluminados, recorramos muitas vezes ao divino Paráclito.

I. Um dos maiores danos que nos causou o pecado de Adão, é o obscurecimento da nossa razão pelo efeito das paixões que nos ofuscam o espírito. Muito desgraçada é a alma que se deixa dominar por alguma paixão! A paixão é uma nuvem, um véu, que nos impede de ver a verdade. Como pode fugir do mal aquele que não o conhece! E este obscurecimento da nossa razão aumenta em proporção do número de nossos pecados.

Mas o Espírito Santo, que é chamado Luz benfazeja (Lux beatissima), com os seus esplendores divinos, não somente abrasa os nossos corações no seu santo amor, como também dissipa as nossas trevas, e nos faz conhecer a vaidade dos bens terrenos, o valor dos eternos, a importância da Salvação, o preço da graça, a bondade de Deus, o amor infinito que ele merece e o imenso amor que nos tem.

“O homem animal não percebe as coisas que são do Espírito de Deus” (I Cor 2,14). O homem chafurdado no lamaçal dos prazeres mundanos pouco percebe as verdades da fé. Eis porque o infeliz tem amor ao que devia odiar, e odeia ao que devia amar. Santa Maria Madalena de Pazzi exclamava: O amor não é conhecido! O amor não é amado! Santa Teresa dizia igualmente que Deus não é amado, porque não é conhecido.

Também os santos pediam sem cessar ao Senhor luz e mais luz: Enviai a vossa luz: dissipai minhas trevas: abri meus olhos; porque sem sermos esclarecidos, não podemos evitar os precipícios nem achar a Deus.

II. Como fruto desta meditação tomemos a resolução de recorrer muitas vezes ao Espírito Santo nas dificuldades que encontramos não somente nos negócios espirituais da alma, mas também nos corporais, especialmente nas de mais graves consequências. Lembremo-nos porém de que Deus não nos comunicará sempre as suas luzes imediatamente; as mais das vezes se servirá, para tal fim, dos nossos Superiores e pais espirituais que ele deixou como seus representantes na terra: “Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos despreza, a mim despreza.”(Lucas 10, 16)

Santo e divino Espírito, creio que sois verdadeiramente Deus, e um só Deus com o Pai e o Filho. Adoro-vos e reconheço-vos por autor de todas as luzes com as quais me fizestes conhecer o mal que fiz ofendendo-vos, e quanto sou obrigado a amar-vos.

Graças vos dou e me arrependo sumamente de vos haver ofendido. Merecia que me abandonásseis nas minhas trevas, mas vejo que ainda não me abandonastes.

Ó Espírito Eterno, continuai a esclarecer-me e a fazer-me conhecer sempre melhor a vossa bondade infinita e dai-me força para Vos amar no futuro de todo o meu coração. Ajuntai graça à graça, para que eu fique docemente unido à Vós e obrigado a não amar senão à Vós. Eu Vo-lo suplico pelos merecimentos de Jesus Cristo. Amo-Vos, ó meu soberano Bem, amo-Vos mais que a mim mesmo. Quero ser todo vosso; recebei-me e não permitais que me afaste mais de Vós. – Ó Maria, minha Mãe, assisti-me sempre por vossa intercessão.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Terceiro dia – Domingo

O Amor é uma água que apaga a sede

“Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede” (João 4, 13)

Sumario: É com razão que Deus se queixa de tantas almas que vão mendigar junto às criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas as alegrias. Nós ao menos não sejamos tão insensatos: apaguemos a nossa sede com as águas do santo amor de Deus, e o nosso coração estará perfeitamente satisfeito. Lembremo-nos, porém, de que a chave que nos abre os canais desta graça desejável, é a santa oração, que nos alcança todos os bens em virtude da promessa de Jesus Cristo: Pedi e recebereis.

I. O amor é chamado também fonte de água viva. O nosso Redentor disse à mulher Samaritana: “Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede” (João 4, 13). Aquele que ama a Deus sinceramente, não busca nem deseja coisa alguma fora de Deus, porque em Deus acha todos os bens. Assim, contente com possuir a Deus, repete sempre na alegria de seu coração: Meu Deus e meu tudo. Ó Meu Deus, Vós sois meu único bem. – Mas Deus queixa-se de tantas almas que vão mendigar junto das criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas as alegrias: “Eles me abandonaram, a mim que sou a fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, que não podem reter a água.”(Jeremias 2, 13).

Aí está, porque o Senhor nos ama, e deseja ver-nos contentes, nos clama a todos: “Se alguém tem sede, venha à mim” (João 7, 37). Quem deseja a verdadeira felicidade, venha à mim, dar-lhe ei o Espírito Santo, que o fará feliz nesta vida e na outra: Aquele que crê em mim, como dizem as Escrituras, do seu seio jorrarão rios de água viva – Sentirá correr de seu próprio sei rios, de água viva como os profetas anunciaram.

Aquele, pois, que crê em Jesus Cristo, e o ama, será enriquecido de tantas graças, que de seu coração, ou de sua vontade, que é como seio da alma, fluirão fontes de santas virtudes, que o ajudarão não somente a conservar a própria vida, mas ainda a comunica-la aos outros.

A água misteriosa de que fala Nosso Senhor, é precisamente o Espírito Santo, o amor substancial, que Jesus prometeu enviar-nos do céu depois da sua Ascensão: “Isto disse ele acerca do Espírito, que haviam de receber os que cressem nele; porque ainda o Espírito não fora dado, por não ter sido ainda Jesus glorificado.” (João 7, 39)

II. A chave que abre os canais desta água desejável, é a oração, pela qual obtemos todos os bens em virtude da divina promessa: “Pedi e recebereis” (João 16, 24). Somos cegos, pobres e fracos; mas a oração nos consegue a luz, a riqueza e a força da graça. Com a oração só podemos tudo, dizia São Teodoreto. Aquele que ora, recebe tudo que deseja. Deus quer dar-nos suas graças, mas quer ser rogado.

“Senhor, dai-me desta água” (João 4, 15). Meu Jesus, dir-vos-ei com a Samaritana, dai- me desta água de vosso amor, que me faça esquecer a terra, e viver só para Vós, ó amável Infinito. “Regai o que é seco”. Minha alma é uma terra seca, que não produz senão abrolhos e espinhos de pecados; ah! Inundai-a com as águas da vossa graça, para que produza algum fruto para vossa glória, antes que a morte me arrebate deste mundo.

Ó fonte de água viva, ó Bem supremo, quantas vezes Vos deixei pelas águas lodosas desta terra, que me privaram do vosso amor! Ah! Não ter eu morrido antes de Vos ofender! Mas, no futuro, não quero mais buscar nada fora de vós. Ó meu Deus, socorrei-me e fazei com que Vos seja fiel. – Maria, minha Esperança, cobri-me sempre com vosso manto.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Quarto dia – segunda-feira

O amor é um Orvalho que fertiliza

“Destilem como o Orvalho as minhas palavras, como chuva sobre a erva.”

(Deuteronômio 32, 2)

Sumário: Por duas razões o amor é chamado Orvalho. Primeiro, porque torna a alma fecunda em bons desejos e boas obras; segundo; porque tempera o ardor das más inclinações e tentações. Se queremos receber este orvalho celestial, apliquemo-nos à oração mental e nunca deixemos de a fazer, ao menos uma vez por dia. Um quarto de hora de meditação basta para apagar o fogo do ódio ou do amor desordenado. Por mais ardente que seja. Ao contrário, a quem não ama a oração, é moralmente impossível vencer as paixões.

I. A Igreja manda-nos pedir ao Espírito Santo, que purifique nossos corações e os torne fecundos por seu salutar orvalho: Que a Infusão do Espírito Santo purifique os nossos corações e os fecunde com a intima aspersão de seu orvalho. O amor faz a alma fecunda em bons desejos, santas resoluções e boas obras: tais são as flores e os frutos da graça do Espírito Santo. – O amor é chamado também orvalho, porque tempera o ardor das más inclinações e tentações. Por isso se diz do Espírito Santo que ele modera o ardor e refrigera. – Nos ardores a calma, doce refrigério.

Este salutar orvalho desce sobre nossos corações durante a oração. Um quarto de hora de meditação basta para apagar o fogo do ódio ou do amor desordenado, por ardente que seja. A santa meditação é a adega misteriosa de que fala a Esposa do Cântico dos Cânticos: “O rei me introduziu na sua adega, ordenou em mim a caridade”(Cânticos 2, 4). Aí é que nos enchemos de caridade bem ordenada, pela qual amamos ao próximo como a nós mesmos, e a Deus sobre todas as coisas. Quem ama a Deus, ama a oração, e a quem não ama a oração, é moralmente impossível vencer as próprias paixões.

II. Para que não sejamos oprimidos pelos ardores das más inclinações, e afim de que o Espírito Santo possa fertilizar as nossas almas com o orvalho dos seus dons, tomemos hoje a forte resolução de fazer cada dia ao menos uma meia hora de oração mental.

São João Crisóstomo compara a oração mental a uma fonte no meio de um jardim; porque sem ela todas as virtudes murcham, ao passo que com ela se conservam frescas e amenas, e se aperfeiçoam constantemente.

Assim como quem sai de um jardim, faz um ramalhete das flores que mais o encantam, assim, segundo o aviso de São Francisco de Sales, devemos ao sair da meditação compor um como que ramalhete dos pensamentos que mais nos impressionaram, e durante o dia aviva-los de tempos em tempos, mesmo durante as nossas ocupações.

Ó Santo e Divino Espírito, não quero mais viver para mim mesmo; em Vos amar e agradar quero empregar tudo o que me resta da vida. Com este fim Vos peço que me concedais o dom da oração mental. Vinde a meu coração, ensinai-me vós mesmo a praticá-la como se deve. Dai-me a força de não deixa-la por tedio no tempo da aridez; dai-me o espírito de oração, isto é, a graça de sempre orar e de fazer aquelas orações que sejam mais agradáveis ao vosso divino Coração. – Por meus pecados me havia perdido; mas por tantos sinais de vossa ternura, reconheço que quereis a minha salvação e santificação. Quero santificar-me para Vos agradar e amar mais a vossa infinita bondade. Amo-vos, ó meu soberano Bem, meu amor, meu tudo, e porque Vos amo, dou-me todo a Vós. – Ó Maria, minha esperança, protegei-me.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Quinto dia – Terça-feira

O amor é o repouso que restaura as forças

“Em paz dormirei nele mesmo, e repousarei.” (Salmo 4, 9)

Sumario: O efeito principal do amor é unir a vontade da pessoa que ama, à do objeto amado, tanto na propriedade como na adversidade. Para uma alma que ama a Deus, consolar-se nas humilhações, dores e perdas que sofre, basta saber que o Senhor quer vê-la suportar tal pena. Dizendo somente: Assim o quer meu Deus, acharemos paz e o contentamento no meio das tribulações e sob o peso da cruz.

I. “O amor se chama: Alívio nas penas, consolação nas lágrimas.” O amor é um repouso que recreia, porque o ofício principal do amor é unir a vontade da pessoa que ama, à do objeto amado. Para consolar-se de todas as humilhações que recebe, dores que sofre, perdas que padece, uma alma que ama a Deus, só precisa de conhecer a vontade de seu amado que deseja vê-la suportar tal pena.

Dizendo somente: Assim o quer meu Deus, ela acha paz e contentamento no meio de todas as tribulações. Esta é a paz divina que transcende todos os prazeres dos sentidos: Paz de Deus que supera todos os sentidos (Filipenses 4, 7). Santa Maria Madalena de Pazzi sentia-se inundada de alegria só com o pronunciar das palavras: Vontade de Deus.

Nesta vida cada um deve levar sua cruz; mas, diz Santa Teresa: A cruz é dura para quem a arrasta, não, porém, para aquele que a abraça. Assim é que o Senhor sabe ao mesmo tempo ferir e curar, segundo a expressão do Santo Jó: “Ele fere e cuida, se Ele golpeia sua mão cuida (Jó 5,18). Por sua doce unção o Espírito Santo torna suave e amável até os opróbrios e tormentos. “Sim Meu Pai, assim seja, porque é vossa vontade” (Mateus 11, 26). Assim orou Jesus Cristo, e nós também devemos repetir estas palavras do Salvador todas as vezes que a adversidade nos visitar: sim meu Pai, assim seja, porque é vossa vontade. Quando trememos sob a ameaça de alguma desgraça temporal, repitamos sempre: “Fazei, ó meu Deus: aceito desde já tudo o que fizerdes. Protesto que quero viver onde Vós quiserdes, sofrer tudo o que quiserdes e morrer quando quiserdes.” É também utilíssimo oferecer-se muitas vezes a Deus no decurso do dia, como fazia Santa Teresa.

II. Ah! Meu Deus, quantas vezes, para fazer a minha própria vontade, contrariei a vossa e cheguei a desprezá-la. Disto me aflijo mais que todos os males. De aqui em diante quero de todo o coração amar-Vos e obedecer-Vos. “Falai, Senhor, vosso servo escuta” (I Reis 3, 10). Dizei o que quereis de mim; quero fazer em tudo a vossa vontade. Esta será para sempre o meu único desejo, o meu único amor. Ajudai a minha fraqueza, ó Espírito Santo. Vós sois a mesma bondade; como, portanto, para amar outra coisa senão a Vós? Conjuro-Vos, atraí para Vós, pela doçura de vosso amor, todos os afetos do meu coração. Renuncio a tudo para me dar a Vós sem reserva.

“Recebei, Senhor, toda a minha liberdade. Aceitai a minha memória, a minha inteligência, e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e possuo, fostes Vós quem me deu; venho restitui-lo, e entregá-lo inteiramente ao vosso beneplácito. Dai-me somente o vosso amor com a vossa graça, e bastante rico sou, mais nada vos peço.” – Faço o mesmo pedido a vós, ó Mãe do belo amor, Maria, e espero que me obtereis pela vossa poderosa intercessão.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Sexto dia – Quarta-Feira

O amor é uma virtude que fortifica

“O amor é forte como a morte.” (Cânticos 8, 6)

Sumario: Quando se trata de agradar ao objeto amado, o amor vence tudo; não há dificuldade que resista ao amor; porque, aquele que ama, não sente o sofrimento, ou se o sente, o ama. O sinal, pois, mais certo para conhecer se uma pessoa ama muito a Deus, é a sua fidelidade na adversidade como na prosperidade. Dizemos que amamos a Deus, mas até agora que fizemos por ele? Como suportamos as cruzes que nos manda para nosso bem?

I. Assim como não há força criada que resista à morte, assim não há dificuldade que não ceda ao ardor de uma alma amante. Quando se trata de agradar ao objeto amado, o amor vence tudo, perdas, desprezos, dores. Nada é bastante duro para resistir ao fogo do amor, diz Santo Agostinho: Nada é tão duro que o fogo do amor não o possa vencer. O sinal mais certo, pois, para reconhecer se uma pessoa ama muito à Deus, é a sua fidelidade em amar na adversidade como na prosperidade.

Dizia São Francisco de Sales que Deus é tão amável quando nos aflige, como quando nos consola, porque faz tudo por amor, e até, quando mais nos aflige nesta vida, é que nos testemunha mais o seu amor. São João Crisóstomo julgava mais feliz São Paulo nos ferros, que São Paulo arrebatado ao terceiro céu.

Também os santos mártires se regozijavam no meio dos tormentos e agradeciam ao Senhor como grande favor que lhes dispensava o terem de sofrer por seu amor. E os outros santos, que não acharam tiranos para os atormentar, tornaram-se carrascos de si mesmos pelas penitências com que se castigaram, afim de se fazerem agradáveis à Deus. Aquele que ama, diz Santo Agostinho, não sente o sofrimento, ou se sente, o ama.

II. Ó Deus de minha alma, digo que Vos amo; mas que faço por vosso amor? Nada. É então um sinal de que não Vos amo, ou Vos amo muito pouco. Meu Jesus, enviai-me o Espírito Santo, que me venha dar a força de sofrer e fazer alguma coisa por vosso amor

antes de minha morte. Ah! Meu amado Redentor, não permitais que eu morra neste estado de frieza e ingratidão em que tenho vivido até hoje. Concedei-me a graça de amar os sofrimentos, depois de tantos pecados que me tornaram dignos do inferno.

Ó meu Deus, todo bondade e todo amor, desejais habitar em minha alma d’onde

tantas vezes Vos expulsei; vinde, estabelecei nela a vossa morada, dominai nela e

fazei-a toda vossa. Amo-Vos ó meu Senhor, e já que Vos amo, comigo estais, Como São João me afirma: “Aquele que mora no amor, mora em Deus e Deus nele” (I João 4, 16). Se, pois, estais comigo, aumentai em mim as chamas de vosso amor, fortificai as cadeias que me prendem a Vós, não busque e não ame senão a Vós, e assim unido convosco, não me separe jamais do vosso amor. Ó meu Jesus, quero ser vosso, todo vosso. – Ó minha Advogada e Rainha, Maria, alcançai-me o santo amor e a perseverança.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Sétimo dia – Quinta-Feira

Pelo amor, a alma torna-se morada de Deus

“Rogarei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador, afim de que more sempre convosco” (João 14, 16).

Sumario: É esta a magnífica promessa de Jesus Cristo em favor daquele que o ama: Se me amais, rogarei ao Pai, e ele vos enviará o Espírito Santo, afim de que more sempre convosco. Deus, portanto, habita na alma que o ama. Lembremo-nos, porém, de que Deus é cheio de zelos. Quer habitar só na alma, e não está contente, se não o amamos de todo o coração e queremos dividir o nosso amor entre Ele e as criaturas.

I. O Espírito Santo é chamado hóspede das almas: Doce hóspede das almas. É o efeito da magnífica promessa de Jesus Cristo em favor daquele que o ama. “Se me amais, guardai os meus mandamentos; e rogarei a meu Pai, e Ele vos enviará outro consolador, o Espírito Santo, afim de que more sempre convosco.” Sim, sempre, porque o Espírito Santo não desampara nunca uma alma, a não ser que seja expulso por ela: Não abandona, a não ser que seja expulso.

Deus, portanto, habita em toda a alma de que é amado; mas declara não ficar satisfeito, se não o amamos de todo o nosso coração. Escreve Santo Agostinho, que o senado romano se recusou a admitir Jesus Cristo no número dos deuses, dizendo que ele é um Deus soberbo, que quer ser adorado só. Isso é verdade: Nosso Senhor não sofre rival num coração que o ama; quer habitar nele só, e ser amado só. Se ele não se vê amado só, tem, por assim dizer segundo a expressão de São Tiago, tem zelos das criaturas com que é dividido esse coração, que ele desejava só para si: “Sois amados até os ciúmes pelo Espírito que habita em vós” (Tiago 4, 5). Numa palavra, como diz

São Jerônimo: Jesus é um Deus cheio de zelos.

É este o motivo por que o Esposo celeste louva a alma que, semelhante à rolinha, vive na solidão e escondida do mundo: “Tuas faces são graciosas, como a rolinha”. Não quer que o mundo tenha parte no amor desta alma, deseja-a toda inteira para si. Se ele ainda louva a sua esposa, chamando-a jardim fechado: “É um jardim fechado, minha irmã, minha esposa” (cânticos 4, 12), – é porque ela não deixa entrar em seu coração nenhum afeto terreno. – Ah! Jesus não merece todo o nosso amor? Ele te deu tudo, nada guardou para si, diz São João Crisóstomo: Ele nos deu tudo, seu sangue e sua vida; mais do que isto não podia nos dar.

II. Se queremos que Deus habite em nossa alma com a plenitude de sua graça, consagremo-la hoje de novo toda inteira e sem reserva a seu serviço e repitamos esta nossa consagração muitas vezes durante o dia, especialmente na oração mental, na santa comunhão e na visita ao Santíssimo Sacramento.

Lembremo-nos de que há três meios principais pelos quais uma alma se pode dar toda a Deus. Primeiro, evitar todas as faltas deliberadas, ainda as mais pequeninas, e para este fim reprima o mais insignificante desejo desordenado e mortifique a satisfação dos sentidos. Segundo, escolher, entre as coisas boas, a melhor, que mais agrade a Deus. Terceiro, aceitar com paz e gratidão, das mãos do Senhor, tudo o que mortifica o nosso amor próprio e em particular os desprezos. Lembremo-nos de que tem mais valor aos olhos de Deus um desprezo sofrido em paz e por amor dele, do que mil mortificações e mil práticas.

Ó meu Deus, bem vejo que me quereis todo para Vós. Tantas vezes Vos expulsei da minha alma, e não Vos recusais de nela entrar e unir-Vos a mim. Ah! Tomai agora posse de todo o meu ser; dou-me inteiramente a Vós.

Aceitai-me, ó meu Jesus, e não permitais que eu viva de aqui em diante um instante sequer sem vosso amor. Vós me buscais, e eu não busco senão a Vós. Quereis minha alma, e ela só Vos quer a Vós. Vós me amais, e eu também Vos amo; e já que me amais, prendei-me tão perfeitamente convosco, que não me aparte mais de Vós. – Ó Rainha do céu, e minha querida Mãe, Maria, em vós ponho minha confiança.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Oitavo dia – Sexta-Feira

O amor é um vínculo

“Acima de tudo, tende a caridade que é o vínculo da perfeição.” (Colossenses 3, 14)

Sumario: Antes da vinda de Jesus Cristo, os homens afastavam-se de Deus, e aferrados à terra, recusavam unir-se a seu criador. Mas nosso amável Senhor enviou-nos o Espírito Santo, afim de que, assim como ele é o vínculo indissolúvel que une o Pai ao Verbo Eterno, assim uma nossas almas a Deus pelo amor. Procuremos, pois, estar fortemente ligados por este vínculo de perfeição, e não correremos mais risco de nos afastar de Deus. Antes de tudo, porém é necessário que livremos o nosso coração de todos os laços que o prendem ao mundo.

I. Assim como o Espírito Santo, amor incriado, é o laço indissolúvel que une o Pai e o Verbo Eterno, assim é esse mesmo Espírito que une nossas almas à Deus. A caridade, diz Santo Agostinho, é uma virtude que nos une a Deus. Daí este grito de alegria de São Lourenço Justiniano: Ó amor, tu és então um vínculo de tal maneira forte, que pudeste encadear um Deus e uni-lo a nossas almas! – Os laços do mundo são laços de morte, mas os laços de Deus são laços de vida e Salvação: “Seus liames, são ligaduras salutares” (Eclesiástico 6, 31). Porquanto são vínculos de amor, e o amor nos une a Deus, nossa única e verdadeira vida.

Antes da vinda de Jesus Cristo os homens separavam-se de Deus; aferrados à terra, recusavam unir-se a seu criador; mas o Senhor, cheio de ternura, os atraiu a si pelos laços de amor, como tinha prometido por Oséias: “Eu os atrairei com cordas humanas, com os vínculos da caridade”(Oséias 11, 4). Estes laços são os seu benefícios: luzes, apelos ao seu amor, promessas do paraíso; mas é sobretudo o dom que nos fez de Jesus Cristo no sacrifício da cruz e no Sacramento do altar, e enfim, o dom do Espírito Santo. Por isso exclama o profeta: “Rompe as cadeias do teu pescoço, filha cativa de Sião” (Isaías 52, 2). Ó alma, criada para o céu, desfaze-te dos laços da terra para te unires a Deus pelos laços do santo amor.

II. “Tende a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3, 14). O amor é um laço que reúne todas as virtudes, e torna a alma perfeita. Daí a seguinte palavra de Santo Agostinho: Ama e faze o que queres. Ama a Deus e faze o que queres, porque quem ama a Deus tem cuidado de evitar tudo o que causa desgosto ao objeto de seu amor, e procura agradar-lhe em tudo.

Dulcíssimo Jesus, muito me haveis obrigado a amar-Vos; muito Vos custou obter o meu amor. Ingratíssimo seria eu, se Vos amasse pouco, ou dividisse o meu coração entre vós e as criaturas, depois que por mim derramastes vosso sangue e sacrificastes vossa vida! Quero desapegar-me de tudo, e por somente em Vós todos os meus

afetos. Muito fraco sou para executar esta resolução; Vós, que m’a inspirais, dai-me a força de a cumprir.

Amantíssimo Jesus meu, feri meu pobre coração com a suave seta do vosso amor, para que não cesse de arder no desejo de Vos possuir e consumir-me de amor para convosco. A Vós procure sempre, A Vós só deseje, a Vós encontre sempre. Ó meu Jesus, só a Vós quero, e nada mais. Fazei com que eu repita sempre durante a minha vida, e sobretudo na hora de minha morte: Meu Jesus, só a Vós quero, e nada mais. – Ó Maria, minha Mãe, fazei com que de hoje em diante eu não queira senão a Deus.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)

Nono dia – Sábado

O amor é um tesouro que encerra todos os bens

“É um tesouro infinito para os homens; do qual os que usaram, têm sido feitos participantes da amizade de Deus” (Sabedoria 7, 14)

Sumario: O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, acha logo a felicidade, porque o Senhor lhe satisfará todos os desejos, e o fará contente mesmo no meio das maiores tribulações. Felizes de nós, se conhecemos o grande tesouro do amor divino e procuramos obtê-lo a todo custo, desapegando-nos das coisas criadas.

I. O amor é o tesouro de que fala o Evangelho, o qual nos cumpre adquirir a custo de tudo mais. A razão é porque ele é realmente aquele bem infinito que nos faz participantes da amizade de Deus. Aquele que acha Deus, acha tudo o que pode desejar: “Deleita-te no Senhor, e ele te concederá as petições do teu coração. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, Deus lhe satisfará todos os desejos. Quais são com efeito os homens mais felizes na terra, senão os santos? E porquê? Porque só querem e buscam a Deus.

Estando um príncipe a caçar, viu um solitário percorrendo a floresta, e perguntou-lhe o que fazia nesse deserto. Mas vós, senhor, retorquiu logo o anacoreta, que vindes buscar aqui? – Eu, acudiu o príncipe, ando em busca de caças. – E eu, tornou o solitário, busco a Deus.

O tirano que martirizou São Clemente de Ancira, ofereceu-lhe ouro e pedras preciosas para conseguir dele que renegasse a Jesus Cristo; mas o Santo, dando um profundo suspiro, exclamou: Pois que! Um Deus posto em paralelo com um pouco de lama! – Feliz de quem conhece o tesouro do divino amor e procura obtê-lo! Quem o conseguir, despojar-se-á por si mesmo de tudo, para não possuir senão à Deus. “Quando o fogo pega na casa”, dizia São Francisco de Sales, “lançam-se todos os utensílios pela janela.” E o padre Segneri, o moço, grande servo de Deus, tinha costume de dizer: “O amor divino é um roubador que nos tira de todos os afetos terrenos ao ponto de exclamarmos então: Senhor, que desejo senão à Vós!” – “Deus de Meu coração, e minha porção, Deus, para sempre” (Salmo 72, 25).

II. Ó mundanos insensatos, exclama Santo Agostinho, ó homens, aonde ides para contentar o vosso coração? O Bem que procurais está longe disso. Aproximai-vos de Deus, recuperai a sua graça, buscai o seu amor, porque só ele pode dar-vos a felicidade que andais procurando. – Nós ao menos não sejamos tão insensatos, e, como nos exorta o mesmo santo doutor, de hoje em diante, busquemos unicamente o amor de Deus, busquemos o único bem, no qual estão encerrados todos os outros. Mas não podemos achar este bem, sem renunciar a todo afeto pelas coisas da terra, como o ensina Santa Teresa: Desapega o teu coração das criaturas e acharás a Deus.

Meu Deus, no passado não foi a Vós que busquei, mas me busquei a mim mesmo e as minhas satisfações; e por elas me apartei de Vós, que sois o Bem supremo. Mas Jeremias me consola, assegurando-me que sois só bondade para os que Vos buscam (Lamentações 3, 25). Amantíssimo Senhor meu, compreendo o mal que fiz deixando- Vos, e arrependo-me de todo o coração. Vejo que sois um tesouro infinito; não querendo deixar inútil esta luz, renuncio a tudo, e escolho-Vos para único objeto dos meus afetos.

Ó meu Deus, meu amor, meu tudo, por Vós suspiro. Vinde, ó Espírito divino, e com o santo fogo do vosso amor, consumi em mim todo o afeto de que não sois o objeto. Fazei-me todo vosso, e que tudo vença para Vos agradar. – Ó Maria, minha Advogada e Mãe, ajudai-me com as vossas orações.

(Pai Nosso, Ave Maria, Ladainha do Divino)